Manual do Mentor de Hackathon

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Um hackathon é uma verdadeira corrida contra o relógio. Em um curto período, as equipes precisam compreender um problema, pensar em soluções, validar hipóteses, estruturar um modelo de negócio, desenvolver um protótipo funcional e preparar um pitch para a banca de avaliação.

Nesse ambiente intenso, o mentor tem um papel decisivo. Mas é importante deixar isso claro desde o início: o mentor não está no hackathon para entregar respostas prontas ou assumir o trabalho da equipe.

Uma boa mentoria ajuda os participantes a enxergar melhor o problema, tomar decisões mais rápidas, reduzir o escopo, testar hipóteses e avançar com autonomia.

Neste artigo escrito por Hector Felipe Cabral, que já facilitou mais de 100 eventos de Ideação pelo Brasil, você vai conhecer as principais funções dos mentores de hackathon e descobrir como atuar em cada etapa da jornada.

O mentor é um facilitador do processo de aprendizagem e desenvolvimento das equipes. Sua função é compartilhar experiências, levantar perguntas relevantes, identificar riscos, conectar conhecimentos e ajudar os participantes a transformar dúvidas amplas em próximos passos objetivos.

Ao final de uma rodada de mentoria, a equipe deve saber:

  • Qual decisão precisa tomar;
  • Qual é o próximo passo;
  • O que precisa ser testado;
  • Quem ficará responsável;
  • Quanto tempo poderá dedicar à atividade.

Se a equipe sair da conversa apenas com mais ideias e mais dúvidas, provavelmente a mentoria não cumpriu sua função. A regra de ouro é simples: se a equipe ficar dependente do mentor para continuar, ele fez demais. Se sair com clareza e autonomia, ele fez o necessário.

Um hackathon pode contar com diferentes perfis de mentores. Cada um contribui em determinados momentos da jornada.

É a pessoa que conhece profundamente o problema apresentado no desafio. Normalmente, sua participação é mais intensa no início da jornada do Hackathon, durante a descoberta e o início da ideação.

Esse mentor ajuda a equipe a compreender:

  • Quem é impactado pelo problema;
  • Como o processo funciona atualmente;
  • Quais são as principais causas e consequências;
  • Quais soluções já foram tentadas;
  • Quais restrições precisam ser consideradas;
  • Que informações e evidências estão disponíveis.

Seu papel não é indicar a solução, mas garantir que a equipe esteja trabalhando sobre um problema real e relevante.

Atua durante toda a jornada, principalmente na prototipação. Ele orienta sobre tecnologias, ferramentas, arquitetura, integrações, dados, inteligência artificial e plataformas no-code ou low-code.

O mentor técnico também ajuda a equipe a definir o que realmente precisa funcionar no protótipo e o que poderá ser apenas simulado. Seu foco deve ser a construção de uma demonstração simples, estável e coerente com a proposta apresentada.

Ajuda a conectar problema, solução, público e geração de valor. Sua participação é especialmente importante durante a validação, a construção do modelo de negócio e a preparação para a banca.

Esse mentor ajuda a definir:

  • Público prioritário;
  • Proposta de valor;
  • Canais de adoção;
  • Recursos essenciais;
  • Parceiros estratégicos;
  • Custos principais;
  • Formas de sustentabilidade;
  • Métricas de impacto e utilização.

O resultado não precisa ser um plano de negócios completo. Em um hackathon, o mais importante é demonstrar uma lógica simples, coerente e baseada em hipóteses verificáveis.

Sérgio Altavini - Mentor de Negócios e Inovação

A atuação dos mentores deve acompanhar o estágio real da equipe. Fazer perguntas sobre modelo de negócio quando o problema ainda não foi compreendido, por exemplo, pode gerar mais confusão do que avanço.

A descoberta é o momento de investigar o problema. O mentor deve ajudar a equipe a separar sintomas, causas e consequências. Também deve incentivar a identificação das pessoas impactadas e das evidências que comprovam a existência do problema.

Perguntas úteis:

  • Quem vive esse problema na prática?
  • Quando e com que frequência ele acontece?
  • Qual é sua principal consequência?
  • Como ele é resolvido atualmente?
  • O que funciona e o que não funciona?
  • Que evidência demonstra que esse problema é prioritário?

A equipe deve concluir essa etapa conseguindo explicar o problema, o público impactado e seu contexto em aproximadamente 30 segundos.

Na ideação, o mentor estimula a equipe a pensar em diferentes alternativas antes de escolher uma solução. É importante evitar que a primeira ideia apresentada seja automaticamente tratada como definitiva.

A seleção deve considerar critérios como:

  • Valor para o usuário;
  • Viabilidade técnica;
  • Tempo disponível;
  • Acesso a dados;
  • Capacidade de validação;
  • Possibilidade de demonstração.

Uma pergunta essencial nessa etapa é: qual é a solução mais simples capaz de provar a proposta de valor? O mentor também deve ajudar a equipe a definir o que não será desenvolvido durante o hackathon.

A validação serve para testar se o problema e a solução fazem sentido para possíveis usuários, clientes, operadores ou demandantes. O mentor pode ajudar a equipe a preparar entrevistas e evitar perguntas que induzam respostas positivas.

Em vez de perguntar “Você usaria nossa solução?”, é melhor perguntar:

  • Conte sobre a última vez em que esse problema aconteceu.
  • Como você resolveu?
  • Quanto tempo, dinheiro ou esforço isso consumiu?
  • Qual parte do processo mais incomoda?
  • O que impediria você de testar uma alternativa?

A validação não deve servir apenas para confirmar a ideia. Ela precisa gerar aprendizado e permitir que a equipe decida entre manter, ajustar ou mudar sua proposta.

Nesta etapa, o mentor ajuda a equipe a estruturar um modelo de negócio simples.

O grupo precisa conseguir responder:

  • Quem usa a solução?
  • Quem decide sobre sua adoção?
  • Quem paga ou sustenta a operação?
  • Qual benefício concreto será entregue?
  • Como os primeiros usuários terão acesso?
  • Quais recursos e parceiros são indispensáveis?
  • Qual métrica mostrará que a solução funciona?

O maior erro é tentar construir projeções financeiras complexas sem dados suficientes. O mais importante é apresentar hipóteses claras e coerentes.

O protótipo deve demonstrar o funcionamento da solução, e não reproduzir um produto final. O mentor técnico ajuda a definir o fluxo principal e a escolher ferramentas compatíveis com o tempo e as habilidades da equipe.

Perguntas importantes:

  • Qual fluxo precisa funcionar para provar a ideia?
  • O que pode ser simulado com transparência?
  • Qual dependência poderá comprometer a apresentação?
  • Existe um plano alternativo caso a internet ou alguma integração falhe?
  • Os dados utilizados são públicos, fictícios ou autorizados?

Também é importante manter uma versão estável do protótipo para a demonstração. Alterações de última hora podem colocar todo o trabalho em risco.

A preparação para a banca transforma o trabalho realizado em uma narrativa clara.

Um pitch de hackathon pode apresentar:

  1. Problema e público impactado;
  2. Evidências coletadas;
  3. Solução proposta;
  4. Funcionamento do protótipo;
  5. Resultados da validação;
  6. Modelo de negócio;
  7. Diferenciais e impacto;
  8. Próximos passos.

O mentor deve ajudar a eliminar informações secundárias, jargões e funcionalidades que não contribuem para a compreensão.

O pré-pitch é o ensaio geral.

Durante essa etapa, os mentores devem observar:

  • Clareza da explicação;
  • Conexão entre problema e solução;
  • Qualidade das evidências;
  • Funcionamento da demonstração;
  • Distribuição das falas;
  • Respeito ao tempo;
  • Capacidade de responder perguntas.

Um bom feedback deve destacar o que funcionou e indicar, no máximo, três correções prioritárias. O mentor não deve reescrever todo o pitch. A apresentação precisa manter a linguagem, o aprendizado e o protagonismo da equipe.

Durante a banca, o protagonismo é completamente dos participantes. O mentor não deve corrigir falas, sinalizar respostas, interferir na demonstração ou defender uma equipe diante dos avaliadores.

Caso também faça parte da banca, deverá declarar possíveis conflitos de interesse, aplicar os mesmos critérios para todos e separar preferências pessoais das evidências apresentadas.

Alguns limites precisam ser observados durante toda a jornada.

Não cabe ao mentor:

  • Escolher a solução;
  • Tomar decisões pela equipe;
  • Programar ou montar o protótipo inteiro;
  • Escrever todo o pitch;
  • Inventar dados ou validações;
  • Aumentar o escopo desnecessariamente;
  • Favorecer uma equipe;
  • Prometer premiação ou aprovação;
  • Alterar regras do evento;
  • Compartilhar informações confidenciais;
  • Desqualificar ideias ou participantes.

O mentor pode demonstrar caminhos e apresentar referências, mas a execução e as decisões devem permanecer com a equipe.

Uma conversa de 15 minutos pode seguir esta estrutura:

  • Dois minutos para ouvir o contexto e o bloqueio;
  • Três minutos para fazer perguntas de diagnóstico;
  • Seis minutos para explorar alternativas, riscos e evidências;
  • Três minutos para definir o próximo passo;
  • Um minuto para recapitular a decisão.

Comece perguntando: “Qual é o principal bloqueio da equipe neste momento?”

Essa pergunta evita explicações muito longas e direciona a conversa para uma necessidade concreta.

Dicas Práticas